O Carnaval de São Paulo 2026 está prestes a transformar o Sambódromo do Anhembi em um imenso terreiro a céu aberto, onde a batida do surdo encontra o toque sagrado do atabaque. Mais do que uma festa de cores e luxo, o próximo desfile das escolas de samba paulistanas se desenha como um dos mais profundos manifestos de fé e resistência cultural dos últimos anos. Com enredos mergulhados na cosmogonia africana, as agremiações decidiram evocar a proteção dos Orixás e a sabedoria das entidades espirituais, reafirmando que o samba é, antes de tudo, uma oração cantada que ecoa a voz de quem veio antes de nós.
Neste cenário de celebração, a presença de divindades como Iemanjá, Oxum e Exu deixa de ser apenas alegórica para se tornar o pilar central de narrativas que buscam resgatar a dignidade e a beleza da herança afro-brasileira. Ao levar para a avenida figuras emblemáticas como Zé Pelintra, Maria Navalha e as Pombogiras, as escolas de samba promovem um diálogo necessário entre o sagrado e o profano, educando o público e desmistificando preconceitos que ainda persistem na sociedade. O Carnaval 2026 promete ser, portanto, um marco na valorização da identidade brasileira, utilizando a passarela como um espaço de cura e reconhecimento espiritual.
Ao acompanharmos os preparativos de escolas tradicionais como Barroca Zona Sul, Camisa Verde e Branco, Mocidade Alegre e Mocidade Unida da Mooca, percebemos que a temática religiosa não é apenas uma escolha estética, mas um compromisso com a verdade histórica. Este artigo explora os detalhes desses enredos, apresentando os Orixás e as entidades que serão os grandes protagonistas da passarela, além de analisar como essa conexão com a espiritualidade fortalece a cultura popular e renova as esperanças de um povo que encontra na folia a sua mais genuína forma de expressão e liberdade.
A Barroca Zona Sul, agremiação que carrega as cores do céu e da paz, traz para o Carnaval de São Paulo 2026 o enredo "Oro Mi Maiô Oxum". A proposta é um mergulho profundo no reino de Oxum, a divindade que governa as águas doces, os rios e as cachoeiras. Fundada em 1974, a escola da zona sul utiliza a figura da "Mãe do Ouro" para falar de amor, fertilidade e, sobretudo, da força feminina que sustenta a vida. O samba-enredo não se limita a citar a orixá, mas constrói uma genealogia espiritual que envolve Orunmilá, Iemanjá e Oxalá, mostrando como a sabedoria de Oxum é fundamental para o equilíbrio das emoções humanas.
A letra do samba evoca passagens sagradas, mencionando o momento em que Oxum se torna a eleita de Orunmilá e a filha amada de Iemanjá e Oxalá. Essa construção narrativa é essencial para que o público compreenda Oxum não apenas sob a ótica da vaidade superficial, mas como uma estrategista política e diplomata entre os deuses. Na passarela, a Barroca promete traduzir essa energia através de tons de amarelo e dourado, simbolizando a riqueza que vai além do material, alcançando a prosperidade espiritual e a harmonia familiar que a orixá tanto protege.
Além da protagonista, o desfile da Barroca Zona Sul dará destaque ao papel de Exu como mensageiro, aquele que permite que a comunicação entre o Orun (céu) e o Ayê (terra) aconteça. Ao entoar "Ayêyê Oxum, da sedução ao mensageiro, Laroyê!", a escola estabelece que nenhum caminho se abre e nenhuma graça se alcança sem o devido respeito aos fundamentos. É uma aula de teologia iorubá em plena avenida, onde o brilho das águas doces de Oxum serve como espelho para que cada componente da escola e cada espectador possa enxergar a própria ancestralidade refletida na força das divindades africanas.
Uma das escolas mais tradicionais e pioneiras de São Paulo, a Camisa Verde e Branco, levará para o Anhembi o enredo "Abre Caminhos", focado na figura de Bará/Eleguá, uma das manifestações de Exu. Para a agremiação da Barra Funda, falar de Exu é falar da própria vida: o movimento, a comunicação e a transformação constante. O samba-enredo é um grito de liberdade que busca afastar o estigma negativo que muitas vezes recai sobre esta divindade, apresentando-o como o guardião dos portais e aquele que detém a "boca que tudo come" e o "olho que tudo vê".
A riqueza deste enredo reside na inclusão corajosa de entidades que povoam o imaginário das religiões de matriz afro-brasileira, especialmente da Umbanda e da Jurema. O "Trevo" da Barra Funda saúda os Exus de trabalho, como Capa Preta, Tranca Rua e Marabô, figuras que atuam na limpeza e proteção dos caminhos. Ao cantar "Quem me guarda é Capa Preta, Tranca Rua e Marabô", a escola assume sua identidade "macumbeira" com orgulho, reforçando o papel social do samba como espaço de acolhimento para aqueles que professam sua fé no chão do terreiro e agora, no chão da avenida.
Não menos importante é a exaltação da malandragem e da força feminina das Pombogiras. Maria Padilha surge como a soberana das encruzilhadas, representando o poder e a autonomia da mulher, enquanto Zé Pelintra e Maria Navalha encarnam a astúcia necessária para sobreviver às adversidades da vida urbana. A Camisa Verde e Branco faz uma ponte perfeita entre o sagrado e a história da Barra Funda, berço da malandragem paulistana, mostrando que a fé e a cultura de rua são faces da mesma moeda que compra a dignidade do povo brasileiro através da arte.
A atual campeã, Mocidade Alegre, escolheu um caminho de profunda sensibilidade ao homenagear a eterna atriz Léa Garcia com o enredo "Malunga Léa: Rapsódia de Uma Deusa Negra". A narrativa se entrelaça com a espiritualidade ao apresentar Léa como a filha predileta de Oxumarê, a divindade do arco-íris e da serpente. A escolha não é por acaso: Oxumarê representa os ciclos, a renovação e a continuidade da vida — temas que definem perfeitamente o legado artístico e social deixado por Léa Garcia na cultura brasileira. O desfile promete ser uma explosão cromática, simbolizando as sete cores do arco-íris que conectam o céu e a terra.
No terreiro da "Morada do Samba", o toque do "bravum" (ritmo sagrado para Oxumarê) ditará o compasso da ancestralidade. Ao clamar "Arroboboi", a escola saúda a dualidade deste orixá, que ora é a serpente que sustenta o mundo, garantindo estabilidade, ora é o arco-íris que traz a esperança de novos tempos. A Mocidade Alegre utiliza a imagem da transformação constante para mostrar como Léa Garcia rompeu barreiras e abriu caminhos para futuras gerações de artistas negros, tornando-se, ela mesma, uma entidade de luz e inspiração para o seu povo.
O conceito de "Malunga", que remete àqueles que atravessaram o oceano juntos no mesmo navio, torna-se o fio condutor da fraternidade que a escola deseja transmitir. Sob a proteção de Oxumarê, a Mocidade Alegre reforça que a morte não é um fim, mas uma transição dentro de um ciclo eterno de renascimento. Na avenida, essa mensagem será visualizada através de movimentos sinuosos e figurinos que brincam com a fluidez entre o masculino e o feminino, o material e o espiritual, celebrando a vida de uma mulher que foi, em essência, a própria manifestação da beleza e da resistência negra.
A Mocidade Unida da Mooca traz para o cenário de 2026 a força de Iemanjá em seu enredo sobre as sociedades secretas femininas Gèlèdés. Iemanjá, a rainha do mar e mãe de quase todos os orixás, é apresentada como a fonte da fertilidade e o equilíbrio emocional necessário para a existência humana. No Carnaval 2026, sua presença no Anhembi simboliza o acolhimento e a proteção. A escola utiliza o canto "Odociá! Yemanjá Odò!" para lembrar que o mar é o útero do mundo, e que a cor azul de suas vestes representa a serenidade que deve guiar as lutas femininas pela preservação da tradição e do conhecimento ancestral.
Em paralelo a essa força feminina, as escolas de samba também buscam em Oxalá a calma necessária para o triunfo. Como divindade da criação, Oxalá é evocado nos momentos de maior tensão da disputa carnavalesca para trazer a paz e o "branco" que purifica a avenida. Seja na manifestação sábia de Oxalufã ou no espírito inovador de Oxaguiã, sua presença no Carnaval é um lembrete de que a sabedoria e a paciência são ferramentas de vitória. As oferendas de canjica branca e o silêncio respeitoso que muitas vezes precede o desfile são gestos de fé que transformam a competição em um ato litúrgico de alta voltagem emocional.
Por fim, não se pode falar de destino e futuro no Carnaval sem mencionar Orunmilá, o detentor do oráculo Ifá. Em 2026, ele aparece como o grande conselheiro que orienta os enredos das agremiações. Orunmilá não interfere, ele orienta; ele não muda o caminho, mas revela as pedras e as flores que o compõem. Ao incluí-lo em suas letras e alegorias, como faz a Barroca Zona Sul, as escolas de samba de São Paulo demonstram um amadurecimento teológico notável, escolhendo agir com discernimento e consciência, entendendo que o sucesso na apuração é fruto de um plantio espiritual feito com respeito aos fundamentos e às cores verde e amarelo que representam este grande sábio.
O protagonismo de Zé Pelintra no Carnaval de 2026 é um dos pontos mais altos da representatividade popular. Figura central da Umbanda e do Catimbó, "Seu Zé" é a voz dos esquecidos, o protetor dos que vivem à margem e o mestre da astúcia urbana. No Anhembi, sua imagem — com o clássico terno branco, chapéu-panamá e gravata vermelha — deixa de ser apenas uma fantasia para se tornar um símbolo de justiça social. Ele ensina que a "malandragem" não é o crime, mas a capacidade de sorrir e dançar mesmo quando a vida impõe desafios severos, sendo um conselheiro espiritual que transita entre a rua e o sagrado com a mesma facilidade.
A presença maciça dessas entidades e Orixás nas letras das escolas de samba de São Paulo cumpre uma função social urgente: o combate à intolerância religiosa. Ao explicar quem é Exu (ou Bará/Eleguá), as agremiações descontroem séculos de demonização cristã sobre as divindades africanas. Quando o público canta em coro saudações como "Laroyê", "Saravá" ou "Oraieieô", ocorre uma normalização cultural de termos que, por muito tempo, foram sussurrados apenas dentro dos terreiros por medo de perseguição. O Carnaval, portanto, atua como uma sala de aula monumental, onde a beleza estética serve de porta de entrada para o conhecimento e o respeito mútuo.
Ao final de cada desfile, o que fica para o espectador é a compreensão de que o povo brasileiro é fruto de uma amálgama espiritual poderosa. O Saravá que ecoa nas arquibancadas é um desejo de saúde e boas energias que ultrapassa as barreiras da religião. O Carnaval de São Paulo em 2026, ao abraçar Zé Pelintra, as Pombogiras e todos os Orixás, reafirma sua posição como o maior espetáculo da Terra não apenas pela técnica, mas pela alma. É um evento onde a identidade é celebrada com orgulho, onde o sagrado se veste de cetim e paetê para dizer ao mundo que a fé afro-brasileira está mais viva, vibrante e necessária do que nunca.
O Carnaval de São Paulo 2026 promete ser uma edição histórica, marcada pela coragem das escolas de samba em assumir sua essência espiritual e ancestral. Através de enredos que exaltam desde a doçura de Oxum até a dinâmica de Exu, a passarela do Anhembi será palco de um verdadeiro reaquecimento da alma brasileira. As homenagens a figuras como Léa Garcia e a inclusão de entidades como Zé Pelintra mostram que o samba continua sendo o maior veículo de preservação da cultura afro-brasileira, educando e encantando gerações simultaneamente.
Ao unir a técnica do espetáculo com o fundamento do terreiro, as agremiações paulistanas não apenas disputam um título, mas cumprem uma missão de cura social e reafirmação identitária. Que em 2026, os caminhos estejam abertos, as águas estejam calmas e o arco-íris da renovação brilhe intensamente para todos. Que o grito de "Saravá" seja a trilha sonora de uma celebração que, acima de tudo, honra a vida e a sabedoria de quem nos ensinou que o samba é o solo sagrado onde todos os pés são iguais.