Hoje, 21 de janeiro de 2026, o mundo se volta para uma das pautas mais sensíveis e fundamentais da experiência humana: a liberdade de crer, de cultuar e de manifestar a espiritualidade. O Dia Mundial da Religião não é apenas uma data no calendário para celebrar doutrinas específicas, mas um chamado global para a harmonia e o diálogo inter-religioso. Vivemos em um tempo onde a pluralidade deveria ser vista como uma riqueza, mas, infelizmente, ainda precisamos de marcos temporais para nos lembrar de que o respeito ao sagrado do outro é a base para qualquer sociedade que se pretenda civilizada.
A relevância deste tema no Brasil ganha camadas ainda mais profundas, pois hoje também celebramos o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Esta coincidência de datas não é por acaso; ela reflete a luta histórica por um país onde o toque do tambor no terreiro, o sino da igreja, a oração na mesquita ou o silêncio do centro espírita sejam todos protegidos sob o mesmo manto de dignidade. O objetivo deste artigo é mergulhar nas origens dessas celebrações, entender os marcos legais que sustentam nossa liberdade e, acima de tudo, validar a resistência daqueles que, mesmo diante do julgamento, não abrem mão de sua essência espiritual.
Engajar-se nesta conversa é fundamental para quem deseja construir um futuro onde a fé seja uma ponte, e não um muro. Se você já sentiu o peso do preconceito por sua crença ou se busca compreender como ser um agente de paz e respeito em sua comunidade, este conteúdo foi desenhado para você. Vamos explorar desde a fundação histórica do Dia Mundial da Religião até a força simbólica do manifesto "enquanto o tambor tocar", celebrando a fé que impulsiona a nossa evolução e engrandece o espírito humano em todas as suas cores e formas.
O Dia Mundial da Religião teve sua semente plantada em 1950, por iniciativa da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís dos Estados Unidos. A fé Bahá'í, que tem como um de seus pilares a unidade das religiões, propôs esta data para incentivar a compreensão mútua e demonstrar que a religião deveria ser uma força para a união da humanidade, e não uma causa de divisão. Desde então, a data se espalhou pelo globo, promovendo encontros ecumênicos e diálogos que buscam os pontos de convergência entre os diferentes sistemas de crença, focando na ética universal e na paz.
No contexto brasileiro, o dia 21 de janeiro adquiriu um tom de urgência e memória com a instituição do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, oficializado pela Lei 11.635/2007. Esta data é uma homenagem póstuma à Mãe Gilda de Ogum, ialorixá baiana que foi vítima de graves ataques de intolerância em 2000. O sofrimento e o falecimento de Mãe Gilda tornaram-se um símbolo da luta contra a perseguição às religiões de matriz africana, expondo a ferida do racismo religioso e impulsionando a criação de mecanismos de denúncia e proteção aos templos e fiéis.
Portanto, o dia de hoje carrega essa dualidade necessária: a celebração da harmonia proposta pela fé Bahá'í e a denúncia da violência sofrida por tantos brasileiros em função de seu credo. É um momento de reflexão sobre como a tolerância — ou a falta dela — afeta o tecido social. Quando respeitamos a religião do próximo, não estamos concordando com seus dogmas, mas sim validando o direito humano fundamental de buscar o divino de acordo com a própria consciência, garantindo que o sagrado individual não seja violado pela ignorância ou pelo ódio alheio.
Embora o dia 21 de janeiro concentre as maiores discussões, o calendário brasileiro reserva outras datas essenciais para a manutenção da nossa liberdade. No dia 7 de janeiro, celebramos o Dia da Liberdade de Culto. Esta data remete ao ano de 1890, logo após a Proclamação da República, quando foi promulgado o decreto que separou o Estado da Igreja, garantindo que o Brasil passasse a ser um Estado laico. Antes disso, o catolicismo era a religião oficial e outras manifestações eram restringidas; o decreto de 7 de janeiro foi o primeiro passo jurídico para que todos os brasileiros pudessem exercer sua fé sem a tutela do governo.
Além da proteção jurídica, a espiritualidade também é celebrada através da dedicação pessoal na Dia da Vida Religiosa Consagrada, comemorado no terceiro domingo de agosto. Esta data é voltada para aqueles que escolheram dedicar suas vidas inteiramente ao serviço de suas comunidades de fé, seja em conventos, monastérios ou funções sacerdotais. É um reconhecimento da vocação espiritual como um caminho de serviço à humanidade, reforçando que a religião também se manifesta através do sacrifício pessoal e da entrega em benefício do próximo e da caridade.
Essas celebrações, somadas, criam uma rede de proteção e valorização da diversidade de crenças no Brasil. Elas reforçam que a convivência pacífica não é apenas um desejo romântico, mas uma obrigação civil e um direito garantido por lei. Entender esses marcos ajuda o cidadão a identificar quando um direito está sendo violado e a valorizar a história de luta que permitiu que hoje possamos, em 2026, falar abertamente sobre nossas crenças sem o medo da perseguição estatal que era comum em séculos passados.
Para muitos, a religião não se resume a leis ou datas históricas; ela é sentida na batida do coração e na vibração da pele. O manifesto "Enquanto o tambor tocar" resume a resiliência de quem encontra na fé a força para caminhar. No universo das religiões de matriz africana e espiritualistas, o tambor (atabaque) é mais do que um instrumento; ele é a voz dos Orixás, o condutor do axé e o elo entre o orum (céu) e o ayê (terra). Quando o corpo vibra ao som do couro, o médium ou o fiel está reafirmando sua identidade e sua conexão com o sagrado, independentemente de quem julgue ou fale mal.
Essa fé que "envolve os caminhos e engrandece o espírito" é o que mantém viva a esperança em tempos difíceis. Manifestar a fé é um ato de coragem em uma sociedade que, muitas vezes, tenta padronizar o sentimento religioso ou marginalizar aquilo que não compreende. Ao dizer "não tentem me parar", o fiel está declarando sua independência espiritual. A essência de uma pessoa é evidenciada pela forma como ela se relaciona com o divino, e se essa conexão a torna um ser humano melhor, mais ético e evoluído, ela cumpre o propósito maior de qualquer religião.
O arreio da pele, a emoção que rola e a bênção de Olorum (Deus) são experiências subjetivas que ninguém tem o direito de invalidar. O Dia Mundial da Religião ganha vida quando entendemos que a minha fé não precisa anular a sua para ser verdadeira. A diversidade rítmica e doutrinária é o que compõe a beleza da espiritualidade humana. Respeitar o tambor que toca no vizinho é, em última instância, proteger o direito de que o seu próprio sino ou oração continue a ressoar livremente.
O combate à intolerância religiosa não deve ficar restrito aos tribunais; ele começa nas pequenas atitudes do cotidiano. Um exemplo prático de promoção da paz é o desenvolvimento de espaços de diálogo inter-religioso em escolas e centros comunitários. Quando crianças de diferentes origens aprendem sobre os símbolos e histórias de diversas religiões de forma respeitosa, o preconceito perde seu espaço de crescimento. Conhecer para respeitar é a máxima que deve guiar as políticas educacionais e as conversas em família, eliminando o medo do "desconhecido" que tanto alimenta o ódio.
Outra forma eficiente de combate à discriminação é o apoio mútuo entre diferentes lideranças religiosas em momentos de crise. Quando um terreiro é atacado e uma igreja ou sinagoga se manifesta publicamente em solidariedade, a mensagem enviada à sociedade é poderosíssima: a agressão a uma fé é uma agressão à liberdade de todas. Campanhas conjuntas de caridade, onde fiéis de diferentes denominações trabalham lado a lado para ajudar os necessitados, mostram que os valores humanitários são maiores do que as diferenças dogmáticas, criando laços que a intolerância não consegue romper.
Na era digital em que vivemos em 2026, a internet também deve ser um campo de batalha contra o preconceito. Denunciar discursos de ódio em redes sociais, compartilhar conteúdos que explicam corretamente os fundamentos de religiões estigmatizadas e não repassar piadas ou memes que diminuem a fé alheia são ações práticas que todos podemos adotar. A blindagem da nossa liberdade religiosa depende da nossa vigilância constante e da nossa disposição em ser um "ponteiro" de harmonia em um mundo que muitas vezes prefere o conflito.
A palavra de ordem neste 21 de janeiro é alteridade — a capacidade de reconhecer o outro como alguém diferente de mim, mas com direitos iguais aos meus. A minha fé me faz melhor não porque ela seja "superior", mas porque ela me conecta com a minha melhor versão. Se o meu vizinho encontra essa mesma evolução através de um caminho diferente, isso deveria ser motivo de celebração, não de discórdia. A espiritualidade evoluída é aquela que não precisa de validação externa ou de exclusividade para se sentir segura; ela se sustenta na própria luz e no respeito à luz alheia.
Precisamos entender que a liberdade religiosa é o termômetro de uma democracia saudável. Onde a fé é perseguida, outras liberdades também estão em risco. Por isso, quando dizemos "respeite a minha religião", estamos pedindo espaço para sermos quem somos em nossa totalidade. O compromisso com a paz inter-religiosa exige que tenhamos a coragem de defender o direito de alguém acreditar em algo que nós mesmos não acreditamos. É nesse exercício de generosidade intelectual e espiritual que a humanidade realmente caminha para a frente.
Enquanto houver um coração batendo e um espírito buscando sentido, haverá religião. Que possamos olhar para este 21 de janeiro de 2026 como um marco de transição: do tempo da tolerância (que apenas suporta o outro) para o tempo do respeito e da celebração da diversidade. Que a fé, seja ela qual for, continue sendo o motor que nos impulsiona para a evolução, para a caridade e para o amor incondicional, mantendo acesos os tambores, os altares e as chamas internas de cada ser humano.
Em conclusão, o Dia Mundial da Religião e o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa são mais do que datas comemorativas; são convites ao despertar da consciência coletiva. Vimos que a história dessas datas está manchada pelo sangue de mártires como Mãe Gilda, mas também iluminada pela esperança de profetas da paz. A liberdade de culto e o respeito às escolhas espirituais de cada indivíduo são pilares inegociáveis para a construção de uma sociedade justa e fraterna no Brasil e no mundo.
O manifesto pessoal de cada fiel — seja ele expresso no som de um tambor ou no silêncio de uma prece — deve ser protegido por todos nós. Ao celebrarmos hoje a diversidade de crenças, reafirmamos o nosso compromisso com o diálogo, com a ética e com o fim de todas as formas de discriminação. A evolução do espírito humano passa, obrigatoriamente, pelo reconhecimento de que todos somos buscadores da verdade, trilhando caminhos distintos que, ao final, buscam o mesmo destino de paz e plenitude.
Respeite a minha fé, que eu respeitarei a sua. Que em 2026, a batida do tambor e o pulsar do coração de cada religioso sejam sinais de vida e resistência, lembrando-nos que o sagrado reside na liberdade de ser quem somos perante o Criador e perante os homens.