O que é Umbanda?: História, Entidades e Fundamentos para Iniciantes
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Muitas pessoas sentem uma curiosidade natural ao passar em frente a um terreiro ou ao ouvir o som dos atabaques ecoando ao longe. A Umbanda, sendo uma religião genuinamente brasileira, carrega em sua essência uma mistura rica de elementos que refletem a própria formação do povo do Brasil. No entanto, cercada por mistérios e, por vezes, preconceitos, entender o que realmente acontece dentro de uma "gira" exige olhar além da superfície e compreender os pilares de amor e caridade que sustentam essa fé.
Neste artigo, vamos percorrer os caminhos que levaram ao surgimento da Umbanda, desmistificar o papel das entidades e explicar, de forma didática, como se organiza a hierarquia espiritual. Se você busca uma porta de entrada para entender essa religião sem precisar mergulhar em teologias densas e complexas de imediato, este guia foi feito para você. Nosso objetivo é apresentar os conceitos fundamentais que fazem da Umbanda uma das expressões espirituais mais acolhedoras e vibrantes do nosso país.
A relevância de compreender a Umbanda vai além da religiosidade; é uma questão de cultura e autoconhecimento. Ao longo dos próximos tópicos, você descobrirá que o "chão do terreiro" é um espaço de igualdade, onde a sabedoria não vem de títulos acadêmicos, mas da experiência de espíritos que, através de gerações, decidiram dedicar sua pós-existência ao auxílio do próximo. Prepare-se para uma jornada de aprendizado sobre a "Religião de Aruanda".
A Origem Histórica: O Marco de 1908 e Zélio de Moraes
A história oficial da Umbanda tem uma data e um local muito específicos: 15 de novembro de 1908, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Tudo começou com um jovem chamado Zélio Fernandino de Moraes, que sofria de paralisia e fenômenos estranhos que os médicos não conseguiam explicar. Levado a uma sessão espírita kardecista, Zélio incorporou um espírito que se identificou como o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Naquela época, o espiritismo tradicional ainda tinha dificuldades em aceitar a manifestação de negros e indígenas, considerando-os espíritos "atrasados".
O Caboclo das Sete Encruzilhadas, porém, trouxe uma mensagem revolucionária. Ele declarou que fundaria uma nova religião onde todos os espíritos, independentemente de sua origem étnica ou social, teriam voz e poderiam praticar a caridade. O nome dado foi Umbanda, e o primeiro templo, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, abriu suas portas no dia seguinte. A premissa era simples, mas poderosa: um espaço onde o rico e o pobre, o mestre e o aprendiz, se encontrariam em pé de igualdade sob a luz da espiritualidade.
Desde aquele momento, a Umbanda se espalhou pelo Brasil com uma velocidade impressionante. Ela se adaptou a diferentes regiões, incorporando sotaques e costumes locais, mas mantendo sempre o pilar central estabelecido por Zélio de Moraes. Entender esse início é fundamental para perceber que a Umbanda nasceu como um movimento de inclusão, dando dignidade às figuras do índio e do negro, que foram historicamente marginalizadas na sociedade brasileira.
A Hierarquia dos Orixás: Forças da Natureza na Umbanda
Diferente do que muitos pensam, na Umbanda os Orixás não incorporam da mesma forma que as entidades (como os Pretos-Velhos). Eles são vistos como vibrações puras, divindades que representam as forças da natureza e os atributos de Deus (chamado de Zambi ou Olorum). Imagine os Orixás como grandes janelas através das quais a luz divina passa, cada uma filtrando uma cor e uma energia específica: o mar, as matas, o fogo, as pedreiras e o ar.
A hierarquia é organizada em "Linhas" ou "Sete Linhas da Umbanda", embora a composição dessas linhas possa variar levemente entre diferentes terreiros e vertentes. Geralmente, temos Oxalá no topo, representando a paz e a criação; Iemanjá, a mãe de todos e senhora dos mares; Ogum, o senhor da lei e das batalhas; Oxóssi, o caçador e protetor das matas; Xangô, o senhor da justiça; Iansã, a senhora dos ventos e tempestades; e Omulu/Obaluaê, o senhor da paralização, cura e da passagem.
Essas divindades regem o universo e os nossos comportamentos. Quando um umbandista diz que é "filho de Ogum", ele está dizendo que sua personalidade e sua energia vital vibram mais intensamente na frequência desse Orixá, herdando características como coragem e retidão. Os Orixás fornecem o "axé" (energia vital) necessário para que o trabalho espiritual aconteça, garantindo o equilíbrio do terreiro e a proteção de seus filhos de fé.
O Papel das Entidades: A Sabedoria de Pretos-Velhos e Caboclos
Se os Orixás são a energia divina, as Entidades são os mensageiros que lidam diretamente conosco. Eles são espíritos humanos que já viveram na Terra e evoluíram ao ponto de retornarem para nos guiar. As falanges mais conhecidas são as dos Caboclos e dos Pretos-Velhos. Os Caboclos representam a força, o conhecimento das ervas e a ligação direta com a terra. Eles trazem uma energia de limpeza, cura e conselhos práticos sobre como enfrentar os desafios da vida com firmeza.
Já os Pretos-Velhos são o símbolo máximo da humildade e da resiliência na Umbanda. Representando os escravizados que partiram com sabedoria e sem rancor, eles se manifestam como anciãos sábios que utilizam o cachimbo e o café para benzer e aconselhar. O atendimento de um Preto-Velho é conhecido por ser acolhedor, focado na reforma íntima e na paciência, ensinando que a verdadeira evolução acontece através do perdão e da fé.
Além deles, existem outras linhas de trabalho fundamentais, como os Erês (Crianças), que trazem a pureza e a alegria para limpar o ambiente; os Baianos, que são alegres e cortadores de demandas; os Marinheiros, que lidam com as emoções; e os Exus e Pombagiras, que são os guardiões das encruzilhadas e protetores mais próximos da realidade material humana e muitas outras linhas de trabalho e atuação conforme a vertente. Cada entidade desempenha um papel específico no auxílio espiritual, garantindo que nenhum consulente saia do terreiro sem uma palavra de conforto ou uma direção.
Fundamentos Rituais: O Que Acontece Dentro do Terreiro
O ritual de Umbanda é uma experiência sensorial completa. Tudo começa com a defumação, onde ervas são queimadas para limpar energeticamente o ambiente e as pessoas presentes. O som dos atabaques (instrumentos de percussão) não é apenas música; são toques rituais que ajudam na concentração dos médiuns e evocam a vibração de cada Orixá. Os Pontos Cantados funcionam como orações em forma de melodia, estabelecendo a conexão entre o plano físico e o espiritual.
Dentro do terreiro, a figura do Pai ou Mãe de Santo (Sacerdote) (Zelador no Santo) é a autoridade máxima, responsável por conduzir os trabalhos e zelar pela doutrina. O espaço é sagrado e geralmente dividido entre a assistência (onde ficam os visitantes) e o congá (o altar). O uso do branco é quase universal, simbolizando a paz, a limpeza e a igualdade, já que sob a roupa branca não se distingue a classe social do médium.
Outro elemento essencial são os Pontos Riscados. São símbolos geométricos riscados no chão com pemba (giz magistico) (ponteira) pelas entidades. Esses desenhos são como "assinaturas magnéticas" ou portais que permitem à entidade manipular energias específicas para limpeza ou proteção. O banho de ervas e a entrega de oferendas (sempre em contato com a natureza) também fazem parte dos fundamentos, servindo como ferramentas de troca energética e fortalecimento espiritual.
Ética e Caridade: A Essência do "Pé no Chão"
O pilar central da Umbanda é a caridade gratuita. "Dar de graça o que de graça recebestes" é um lema levado a sério. Um terreiro de Umbanda autêntico nunca cobra por atendimentos, passes ou orientações espirituais. O trabalho é voluntário, movido pelo desejo dos médiuns e das entidades de evoluírem através do serviço ao próximo. Essa pureza de intenção é o que mantém a egrégora da casa forte e protegida contra vibrações negativas.
A ética umbandista também preza pelo respeito absoluto a todas as formas de vida e religiões. Não se faz o mal dentro da Umbanda; qualquer trabalho que vise prejudicar alguém fere os princípios fundamentais da religião e deixa de ser Umbanda para se tornar algo fora da lei espiritual de Oxalá. O praticante de Umbanda busca o equilíbrio entre o mundo material e o espiritual, entendendo que sua conduta fora do terreiro deve ser tão ética quanto dentro dele.
Por fim, a Umbanda é conhecida como a religião do "pé no chão". Estar descalço no terreiro simboliza a conexão com a Terra, a descarga de energias negativas e a humildade. É uma fé que valoriza o simples: uma vela acesa, um copo d'água, uma oração sincera e o cheiro do alecrim. Para quem busca uma porta de entrada na espiritualidade, a Umbanda oferece um caminho de acolhimento onde a resposta para as dores da alma quase sempre passa pelo amor e pelo autoconhecimento.
Guia de Primeira Visita: Como se Comportar em um Terreiro
1. Preparação e Vestimenta
O terreiro é um local de troca energética, e a forma como nos apresentamos influencia nossa receptividade.
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Cores de Roupa: Dê preferência ao branco ou cores muito claras. O branco reflete as energias e simboliza a paz de Oxalá. Evite roupas pretas ou tons muito escuros.
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Discrição: Opte por roupas confortáveis e modestas. Evite decotes acentuados, transparências ou roupas muito curtas (tanto para homens quanto para mulheres). Muitos terreiros pedem que se evite bermudas acima do joelho.
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Higiene Mental: No dia da visita, tente manter o pensamento elevado. Evite discussões, consumo de álcool ou carne pesada, se possível. Isso ajuda a manter sua vibração em sintonia com o trabalho da casa.
2. Ao Chegar no Terreiro
A educação e o silêncio são as suas melhores ferramentas de integração.
| O que fazer | Por que fazer |
| Chegar cedo | Para pegar sua senha de atendimento e se ambientar com a energia do local antes do início. |
| Desligar o celular | O som, a luz e a energia eletromagnética do aparelho quebram a concentração dos médiuns e a corrente espiritual. |
| Saudar o ambiente | Ao entrar, é comum fazer um sinal de respeito (como uma leve inclinação) em direção ao Congá (o altar) e a tronqueira (ponto de segurança). |
| Ficar em silêncio | O terreiro não é um local de conversa social. O silêncio ajuda a manter a "corrente" (energia coletiva) firme. |
3. Durante a Gira (O Ritual)
A Gira é o momento em que os cânticos e as danças acontecem para a chegada das entidades.
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Acompanhe com Respeito: Você não precisa saber as letras dos pontos (músicas), mas pode acompanhar com palmas se notar que a assistência está fazendo o mesmo.
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Levante-se quando solicitado: Em alguns momentos, como na entrada do Pai de Santo ou na saudação a certos Orixás, a assistência se levanta em sinal de respeito. Observe e siga o fluxo.
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Defumação: No início, um médium passará com um defumador. Quando ele chegar perto de você, use as mãos para "puxar" a fumaça em direção ao seu corpo, do topo da cabeça aos pés. É um banho de limpeza espiritual.
4. O Atendimento com a Entidade
Este é o momento da consulta individual. Não há motivo para medo; as entidades estão ali para acolher.
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A Saudação: Quando chegar na frente da entidade, ela provavelmente fará uma saudação ou dará um passe (movimentos de mãos para limpeza). Você pode apenas dizer "Axé" ou "Salve sua força".
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O Diálogo: Fale com a entidade como se falasse com um conselheiro sábio ou um avô/avó. Seja direto e sincero. Eles não estão ali para julgar, mas para orientar.
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Banhos e Recomendações: A entidade pode receitar um banho de ervas ou o acendimento de uma vela. Se não entender como fazer, pergunte educadamente. Geralmente, os "Cambones" (auxiliares que ficam ao lado da entidade) podem te ajudar com as instruções.
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Despedida: Ao final, agradeça. É comum o cumprimento de tocar levemente as costas da mão ou um abraço, dependendo do costume da casa.
Importante lembrar
A Umbanda é caridade: Nunca aceite cobranças por consultas, passes ou trabalhos espirituais dentro de um terreiro. O trabalho das entidades é gratuito.
Compreender a Umbanda é, acima de tudo, compreender a capacidade humana de transformar dor em sabedoria e exclusão em fraternidade. Desde a sua fundação por Zélio de Moraes até a organização complexa de suas linhas de Orixás e entidades, a religião se mantém fiel ao seu propósito inicial: ser um farol para aqueles que buscam auxílio e uma escola para aqueles que desejam servir.
Vimos que a estrutura hierárquica, o papel fundamental de Caboclos e Pretos-Velhos, e os rituais ricos em simbolismos não são meras formalidades, mas ferramentas poderosas de cura e equilíbrio. Se você buscava uma base sólida para entender o conceito básico da Umbanda, este guia apresentou os elementos necessários para que você possa olhar para um terreiro com respeito, clareza e, quem sabe, o desejo de conhecer mais de perto essa força espiritual tão brasileira.
A Umbanda é vasta e cada terreiro pode ter suas particularidades, mas o amor, a caridade e a fé em Zambi são os fios invisíveis que unem todos os seus praticantes. Que este conhecimento sirva de luz no seu caminho.
Pedro Scäråbélo
Pedro Scäråbélo nasceu em São João da Boa Vista, SP, Brasil. Desde jovem, Pedro mostrou grande interesse pelo mundo espiritual e pelos mistérios do universo, o que o levou a se dedicar intensamente a estudos e pesquisas sobre esses assuntos. Ao longo dos anos, Pedro se tornou um renomado autor espiritualista, publicando diversos livros e cursos que abordam temas como mediunidade, reencarnação, espiritualidade, benzimento, autoconhecimento, ufologia, entre outros... https://pedroscarabelo.com.br/