Blog CEUCP 26 de Fevereiro, 2026

Quaresma na Umbanda: Medo, Egrégora e a Verdade sobre o Trabalho Espiritual

Quaresma na Umbanda: Medo, Egrégora e a Verdade sobre o Trabalho Espiritual
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"É tempo de Quaresma… Ai, que medo! Valei-me, meu Pai Ogum! Proteção, Pai Oxalá!" Se você frequenta o universo dos terreiros ou convive com a espiritualidade brasileira, certamente já ouviu essas exclamações. É comum que, logo após o fim do Carnaval, um clima de apreensão tome conta de muitos médiuns e consulentes. Existe uma crença enraizada de que, durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa, o mundo se torna "mais pesado", os espíritos de trevas ganham liberdade e as defesas espirituais ficam fragilizadas. Por conta disso, muitos Terreiros entram em recesso, cessando giras e atendimentos, enquanto filhos de fé se recolhem em um silêncio quase absoluto, evitando qualquer prática energética por puro temor.

A relevância de discutirmos a Quaresma na Umbanda reside justamente na necessidade de desmistificar esse período e entender o que é fundamento e o que é construção social ou religiosa de outras vertentes. Por que paramos? O que realmente acontece no plano espiritual quando o calendário marca a Quarta-feira de Cinzas? Para o umbandista, entender esses mecanismos é vital para não cair na armadilha do medo paralisante. Afinal, a nossa religião é pautada na caridade e no auxílio constante, e a busca por limpeza espiritual e renovação energética não deveria ter data para ser interrompida, especialmente se o objetivo é manter a luz brilhando em tempos de sombras.

Neste artigo, vamos mergulhar no contexto histórico e espiritual deste período de quarenta dias. Vamos analisar como a mente humana é capaz de criar realidades através das egrégoras e por que a "Linha Circular" do Umbral não depende de feriados religiosos para operar. Se você busca compreender se deve ou não continuar suas firmezas, ou se o seu terreiro deve fechar as portas, este conteúdo foi escrito para trazer clareza, equilíbrio e, acima de tudo, uma visão humanizada e lógica sobre o trabalho espiritual. Prepare-se para olhar para a Quaresma não como um monstro, mas como uma oportunidade de reafirmar sua fé e sua proteção.


A Origem Histórica e o Simbolismo do Número 40

Para entender o medo da Quaresma, precisamos primeiro olhar para trás, muito antes de Cristo. A tradição de observar um período de recolhimento nesta época do ano tem raízes profundas no paganismo. Povos antigos utilizavam este tempo como uma despedida do rigoroso inverno e uma preparação ritualística para a chegada da Primavera — um momento de transição entre a escassez e o renascimento da vida. No entanto, foi com a consolidação da Igreja Católica que o termo "Quaresma" ganhou a força e o significado que conhecemos hoje, vinculando-se diretamente ao sacrifício e à penitência.

O número 40 é um dos pilares simbólicos mais recorrentes nas escrituras sagradas, representando ciclos de provação, purificação e transição. Lembramos dos 40 dias de chuva durante o dilúvio de Noé, dos 40 dias em que Moisés permaneceu no Monte Sinai para receber os mandamentos e dos 40 anos de peregrinação do povo judeu no deserto. No Cristianismo, o foco recai sobre os 40 dias de Jesus no deserto e o período que antecede sua crucificação e ressurreição. Esse simbolismo bíblico incutiu na mente ocidental a ideia de que "quarenta" é um tempo de sofrimento necessário para se alcançar a glória divina.

O início desse período está intrinsecamente ligado ao fim do Carnaval, cujo nome vem do latim Carne Vale, ou "despedida da carne". Historicamente, o Carnaval era o momento de extravasar, comer, beber e celebrar a vida profana antes de entrar no rigor da Quaresma, onde a Igreja prescrevia jejuns severos, abstinência de prazeres e mortificações do corpo. Esse contraste entre a "festa da carne" e a "penitência do espírito" criou no inconsciente coletivo a percepção de que, após a euforia, deve vir o castigo ou o recolhimento forçado, alimentando a ideia de que o mundo fica "perigoso" para quem não se sacrifica.

O Medo da Quaresma e a Teoria do "Ônibus Circular"

Muitos umbandistas acreditam piamente que a Quaresma é uma época densa, negativa e pesada, onde falanges de espíritos obsessores e sofredores são "soltas" para rondar o mundo dos encarnados. Esse temor é herdado, em grande parte, de um catolicismo popular que via no período a ausência de Jesus (que estaria "morto" ou em sofrimento), deixando a humanidade desprotegida. No entanto, se pararmos para analisar de forma racional, o mundo cristão representa cerca de 30% da população global. Será que os outros 70% — budistas, hinduístas, muçulmanos — sentem esse mesmo "peso" espiritual? A resposta é simples: não. Para eles, a vida segue seu fluxo normal.

A verdade sobre o movimento espiritual é que espíritos desequilibrados e negativados não consultam o calendário gregoriano para decidir quando devem agir. Gosto de usar a metáfora da "Linha Circular": o ônibus do Umbral está sempre rodando, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Ele vem e vai, vai e vem, e está sempre lotado de passageiros pendurados na porta. O assédio espiritual, as demandas e a presença de irmãos necessitados de luz são constantes. Eles não esperam a Quaresma para "atacar", assim como não tiram férias no Natal ou na Páscoa. O perigo e a necessidade de auxílio são perenes.

Então, de onde vem essa sensação de "ar pesado" que muitos sentem? O movimento de espíritos trevosos é intenso o tempo todo, mas o que muda na Quaresma é a nossa percepção e a nossa guarda. Se acreditamos que estamos mais vulneráveis, paramos de nos cuidar ou baixamos nossa vibração pelo medo, tornamo-nos alvos mais fáceis. O problema não está no período em si, mas na crença de que as trevas têm hora marcada para dominar, o que nos faz esquecer que a luz de nossos Guias e Orixás nunca se apaga.

O Poder da Egrégora: Como o Medo Cria a Densidade

Aqui entramos no ponto crucial da questão: a egrégora. Na espiritualidade, entendemos que uma egrégora é uma força energética criada pela soma dos pensamentos, sentimentos e crenças de um grande grupo de pessoas. Se milhares de mentes, simultaneamente, vibram no medo, na expectativa do negativo e na crença de que "a energia está pesada", elas acabam criando essa realidade no plano astral. O pensamento é forma e é energia. Se todos acreditam que a Quaresma é perigosa, eles acabam por "fabricar" uma densidade energética que, de fato, facilita a atuação de espíritos de baixa vibração.

Essa egrégora de receio e pavor funciona como uma névoa densa. Quando um Terreiro decide fechar ou um médium para de trabalhar por medo, ele está, de certa forma, validando essa egrégora negativa. É como se estivéssemos dizendo: "As trevas são mais fortes neste momento, então vou me esconder". No plano astral, os irmãos do Umbral encontram nessa vibração de medo o alimento e a brecha necessários para causar confusão. Por isso, em muitos casos, o trabalho dos terreiros que permanecem abertos parece "dobrar": eles estão lutando não contra o calendário, mas contra a forma-pensamento de milhões de pessoas que estão enviando medo para o universo.

Portanto, o "peso" da Quaresma é, em grande parte, uma criação humana alimentada por tradições mal interpretadas. Quando você muda sua sintonia e se recusa a compartilhar da crença de que este é um período maldito, essa densidade não encontra ressonância no seu campo áurico. Se você mantém seu solo sagrado limpo, sua mente equilibrada e seu coração leve, a egrégora da Quaresma simplesmente não tem poder sobre você. A renovação energética deve ser baseada na força e na alegria, e não na reclusão pelo temor ao que é externo.

Por Que Nós Trabalhamos na Quaresma?

Muitas pessoas me perguntam: "Pedro, seu terreiro trabalha na Quaresma?". E a minha resposta é sempre um sonoro sim! Eu trabalho, meu terreiro trabalha e meus filhos de fé continuam firmes na corrente. Por que faríamos o contrário? Se entendemos que a caridade não tira férias e que os sofredores continuam precisando de ajuda, fechar as portas seria um contrassenso. Na verdade, é justamente quando o mundo vibra no medo que os soldados de luz mais precisam estar de prontidão. Parar o trabalho espiritual na Quaresma seria como um hospital fechar as portas durante uma epidemia.

Ao mantermos os trabalhos normalmente, enviamos uma mensagem clara ao universo e aos nossos Guias: nós confiamos na proteção de Ogum, dos guardiões e guardiãs e na paz de Oxalá acima de qualquer egrégora de medo. Em nosso solo sagrado, a energia permanece leve, feliz e equilibrada, porque não alimentamos a crença do "período denso". Para nós, os quarenta dias são apenas mais um ciclo de oportunidades para servir. Não sentimos nada de anormal ou diferente, pois nossa firmeza não depende do que a maioria acredita, mas do que nós praticamos com convicção e ética espiritual.

Trabalhar na Quaresma é um ato de resistência e de lucidez. É entender que a renovação energética pós-carnaval é necessária, sim, mas através do trabalho e da oração, e não da inércia. Continuamos nossas giras, nossos passes e nossos atendimentos, pois sabemos que a Umbanda é uma religião de luz que não se curva a calendários de penitência baseados na dor. Se você está firme com seus guias e mantém sua reforma íntima em dia, não há o que temer. O trabalho espiritual é o seu maior escudo, e a caridade é o seu melhor preceito.

Limpeza Espiritual e Proteção: Dicas para o Pós-Carnaval

Embora não devamos temer a Quaresma, é inegável que o período do Carnaval gera um desgaste energético considerável na coletividade. O Carne Vale é uma época de excessos, onde muitas pessoas baixam a guarda, o que gera uma necessidade real de limpeza espiritual para retomar o equilíbrio. Se você sente que a energia ao seu redor ficou um pouco mais "turva" após os dias de folia, o segredo não é se esconder por 40 dias, mas sim tomar medidas práticas de purificação e proteção para seguir sua caminhada com vigor.

Para quem deseja se manter equilibrado, recomendo focar em banhos de ervas equilibradoras (como o manjericão ou a alfazema) e na firmeza de seus guias de frente. Manter uma vela acesa para o seu anjo da guarda e reforçar suas orações a Ogum e Oxalá são práticas que garantem que você não entre em sintonia com a egrégora de medo que mencionei anteriormente. A proteção espiritual é construída diariamente através do pensamento elevado e da prática do bem. Se você se mantém "leve, muito leve", como dizemos no terreiro, as energias densas passam por você sem encontrar onde ancorar.

Em resumo, a Quaresma é o que você decidir que ela seja. Se você escolher o medo, ela será pesada. Se você escolher o trabalho e a confiança, ela será um período de profunda renovação energética e crescimento. Não permita que tradições baseadas no sofrimento apaguem a alegria de ser umbandista. Honre seus Guias, mantenha sua casa aberta para a caridade e lembre-se: a luz de Deus e dos Orixás brilha intensamente em todos os meses do ano. Que a sua fé seja sempre maior que qualquer sombra projetada pelo receio humano.


A Luz Não Se Esconde do Calendário

A Quaresma, portanto, revela-se muito mais como um desafio psicológico e coletivo do que como uma ameaça espiritual real e isolada. Vimos que suas origens são uma mistura de ciclos naturais pagãos com dogmas católicos, e que o número 40 carrega um peso simbólico que a humanidade aprendeu a temer. No entanto, para o umbandista lúcido, este período deve ser encarado com a mesma seriedade e alegria de qualquer outro momento do ano, sem a necessidade de interrupções que apenas validam a força das trevas através do nosso medo.

O segredo para atravessar esses dias com segurança está na compreensão do poder da egrégora. Ao nos recusarmos a vibrar no pavor, quebramos o ciclo de negatividade e mantemos nossos terreiros como verdadeiros oásis de luz em meio à névoa de receio que o mundo projeta. A caridade é perene, e o auxílio espiritual é uma missão que não admite recessos baseados em superstições. Mantenha suas firmezas, confie em seus Guias e siga seu trabalho com a certeza de que quem caminha com a luz nunca estará desamparado.

Pedro Scäråbélo

Pedro Scäråbélo nasceu em São João da Boa Vista, SP, Brasil. Desde jovem, Pedro mostrou grande interesse pelo mundo espiritual e pelos mistérios do universo, o que o levou a se dedicar intensamente a estudos e pesquisas sobre esses assuntos. Ao longo dos anos, Pedro se tornou um renomado autor espiritualista, publicando diversos livros e cursos que abordam temas como mediunidade, reencarnação, espiritualidade, benzimento, autoconhecimento, ufologia, entre outros... https://pedroscarabelo.com.br/

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